A chegada da inteligência artificial ao setor jurídico não está acontecendo de forma gradual e discreta. Está acontecendo de forma acelerada, com impactos concretos sobre a forma como escritórios de advocacia operam, como empresas contratam serviços jurídicos e como os próprios advogados precisam se posicionar para continuar relevantes. Doutor Gilmar Stelo, advogado e fundador da Stelo Advogados, acompanha essa transformação com atenção e clareza sobre o que ela representa, tanto em termos de oportunidade quanto de riscos para o exercício responsável da profissão.
Com mais de 40 anos de experiência no direito, Gilmar Stelo tem uma perspectiva que poucos conseguem oferecer: viu o setor jurídico passar pela informatização dos cartórios, pela digitalização dos processos, pelo processo eletrônico e agora pela automação de tarefas que, até pouco tempo, exigiam horas de trabalho humano especializado. Cada uma dessas transições trouxe resistência e, na sequência, adaptação. A atual não será diferente, mas a velocidade é outra.
O que a inteligência artificial já consegue fazer no direito e onde o advogado ainda é insubstituível?
Gilmar Stelo pontua ser importante separar o que a inteligência artificial já realiza de forma consistente no ambiente jurídico do que ainda permanece como domínio essencialmente humano. Ferramentas de IA já são capazes de revisar grandes volumes de contratos em tempo reduzido, identificar cláusulas problemáticas com base em padrões conhecidos, pesquisar jurisprudência de forma mais ampla do que qualquer profissional conseguiria manualmente e gerar minutas iniciais de documentos a partir de modelos estruturados.
O que a IA não faz, e provavelmente não fará a curto prazo, é compreender o contexto completo de uma relação empresarial, perceber nuances que não estão escritas em nenhum documento, construir uma estratégia jurídica que leve em conta o perfil do cliente, o histórico da relação com a contraparte e os objetivos de longo prazo. O valor de um advogado experiente nunca esteve apenas na capacidade de encontrar informações, mas na capacidade de interpretar situações complexas e tomar decisões estratégicas com responsabilidade.
Como escritórios de advocacia estão se adaptando?
O mercado jurídico está respondendo à pressão tecnológica de formas distintas. Alguns escritórios adotaram ferramentas de IA de forma ampla, reduzindo equipes e acelerando processos repetitivos. Outros optaram por uma integração mais seletiva, usando tecnologia para aumentar a produtividade sem abrir mão da profundidade no atendimento.
A Stelo Advogados Associados se enquadra no segundo perfil. A atuação boutique e personalizada, que sempre caracterizou o trabalho do escritório, não é compatível com uma automação indiscriminada. O que a tecnologia permite, nesse contexto, é liberar tempo para o que realmente importa: análise estratégica, aconselhamento de alto nível e acompanhamento próximo de cada caso.
Nota-se que a tecnologia deve servir ao advogado, e não substituir o julgamento que só a experiência consolida. Escritórios que entenderam isso estão conseguindo combinar eficiência operacional com a qualidade técnica que clientes exigentes continuam valorizando.

O que muda para empresas que contratam serviços jurídicos na era da automação?
Do lado das empresas, a transformação tecnológica no direito cria tanto oportunidades quanto novas responsabilidades. Por um lado, o acesso a ferramentas jurídicas digitais reduziu barreiras para questões mais simples. Por outro, a complexidade regulatória aumentou, e a tentação de resolver questões jurídicas com soluções automatizadas sem supervisão especializada tem gerado problemas sérios.
Doutor Gilmar Stelo observa que parte relevante das demandas que chegam à Stelo Advogados hoje tem origem em decisões tomadas com excesso de confiança em soluções digitais não supervisionadas. Contratos gerados por IA sem revisão técnica, políticas de privacidade copiadas de modelos genéricos e estruturas societárias montadas sem aconselhamento especializado são exemplos de situações que parecem economizar tempo e dinheiro no curto prazo, mas que criam vulnerabilidades jurídicas significativas.
O uso de inteligência artificial na advocacia levanta questões éticas que já não podem ser ignoradas
Doutor Gilmar Stelo explica que a adoção de inteligência artificial no exercício da advocacia levanta questões éticas que ainda estão sendo debatidas pelos conselhos profissionais e pela comunidade jurídica, entre elas:
- Responsabilidade por erros automatizados: quem responde juridicamente por uma decisão tomada com base em uma análise gerada por IA?
- Sigilo profissional: como garantir a confidencialidade quando dados sensíveis de clientes são processados por plataformas externas?
- Replicação de vieses: como assegurar que os modelos de IA não estejam reproduzindo distorções que prejudicam determinados perfis de clientes?
- Supervisão humana: em quais etapas do processo jurídico a intervenção humana é insubstituível e onde a automação pode atuar com segurança?
A resposta para essas perguntas passa pela manutenção de padrões éticos rigorosos e pela supervisão humana em todas as etapas que envolvem decisões com impacto real sobre a vida de pessoas e organizações. Tecnologia sem critério ético não é avanço, é risco.
O advogado estratégico no ambiente digital
A figura do advogado que se limita a dominar a lei está sendo substituída pela do profissional que combina conhecimento jurídico profundo com visão estratégica, capacidade de diálogo com outras áreas do negócio e domínio das ferramentas que o mercado disponibiliza. Esse perfil não é novo para quem sempre atuou na intersecção entre direito e estratégia empresarial.
O que a transformação digital faz é tornar esse perfil ainda mais relevante. Em um ambiente em que a informação jurídica básica está cada vez mais acessível, o diferencial está na capacidade de transformar conhecimento em decisão estratégica. E essa capacidade, construída ao longo de décadas de experiência real, não tem substituto tecnológico.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
