À medida que o Brasil avança na agenda de transição energética, Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, chama atenção para uma fonte de energia que está literalmente enterrada nos aterros sanitários do país: o biogás. A decomposição da matéria orgânica depositada nessas instalações produz continuamente metano, um gás que, se liberado na atmosfera, agrava intensamente o aquecimento global, mas que, captado e aproveitado, se converte em energia limpa e receita para os operadores.
O aproveitamento desse recurso transforma a lógica do aterro. Em vez de mero depósito passivo de resíduos, a instalação passa a operar como uma usina de geração distribuída de energia.
Como se forma e se capta o biogás de aterro?
Dentro da massa de resíduos de um aterro sanitário, a ausência de oxigênio cria condições para que bactérias anaeróbias decomponham a matéria orgânica, gerando uma mistura gasosa composta majoritariamente por metano e dióxido de carbono. Esse biogás se acumula no interior da célula de resíduos e tende a migrar para a superfície e o subsolo se não for controlado.
A captação se faz por meio de uma rede de drenos verticais e horizontais instalados na massa de resíduos, conectados a um sistema de sucção que conduz o gás a uma central. Conforme apresenta Marcello José Abbud, o desenho dessa rede e a operação cuidadosa do sistema de extração determinam a eficiência de captura, que define diretamente tanto o ganho ambiental quanto o retorno econômico do projeto.
Do gás captado à energia: quais são as rotas de aproveitamento?
Uma vez captado, o biogás admite diferentes destinos. A rota mais comum é a geração de eletricidade em motores ou turbinas, com a energia injetada na rede ou consumida localmente. Outra possibilidade é o tratamento do biogás para retirada de impurezas e elevação do teor de metano, gerando biometano com qualidade equivalente à do gás natural, apto a ser injetado em gasodutos ou usado como combustível veicular.

Cada rota responde a condições específicas de mercado e infraestrutura. Na avaliação de Marcello José Abbud, a escolha entre gerar eletricidade ou produzir biometano depende da proximidade de redes de distribuição, da demanda local por energia e do valor relativo de cada produto no mercado regional, variáveis que precisam ser estudadas caso a caso na concepção do projeto.
O duplo benefício climático da captação do metano
O aproveitamento do biogás de aterro entrega um benefício ambiental que se manifesta em duas frentes simultâneas. A primeira é a destruição do metano, gás cujo potencial de aquecimento supera em muitas vezes o do dióxido de carbono em horizonte de curto prazo: ao queimar ou aproveitar o metano, evita-se que ele alcance a atmosfera com sua alta capacidade de retenção de calor. A segunda é a substituição de energia gerada por fontes fósseis pela energia limpa produzida a partir do gás.
Somado a isso, o desempenho ambiental verificável desses projetos os habilita à geração de créditos de carbono, criando uma camada adicional de receita. Como reforça Marcello José Abbud, é essa combinação de benefícios, ambiental e econômico, que tem atraído investimento privado para a captação de biogás em aterros de médio e grande porte no Brasil.
O potencial inexplorado dos aterros brasileiros
Apesar dos casos bem-sucedidos já em operação, o aproveitamento do biogás permanece subexplorado diante do número de aterros existentes no país. Muitas instalações queimam o gás apenas para neutralizar o metano, sem recuperar energia, e outras tantas sequer dispõem de sistema de captação adequado, deixando o recurso escapar livremente.
O que se observa, portanto, é uma oportunidade ainda em grande parte adormecida. Para Marcello José Abbud, o desenvolvimento de modelos de negócio que viabilizem a captação até mesmo em aterros menores, possivelmente por meio de arranjos regionalizados, é o passo necessário para que o Brasil aproveite plenamente o potencial energético contido em seus depósitos de resíduos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
