Sob a perspectiva do médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a mortalidade por câncer de mama no Brasil chama atenção porque a doença tem um dos melhores prognósticos da oncologia quando descoberta cedo. Ainda assim, o câncer de mama é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres brasileiras, com média de cerca de 17,5 mil óbitos por ano entre 2015 e 2022. A distância entre o potencial de cura e a mortalidade observada está, em boa parte, no momento em que o diagnóstico acontece.
Mortalidade estável enquanto outros países avançam
Nas últimas décadas, países desenvolvidos registraram queda consistente nas mortes por câncer de mama. A redução combina rastreamento com alta cobertura, acesso rápido à investigação e avanços no tratamento, como terapias dirigidas a características específicas do tumor.
No Brasil, a tendência foi diferente. A taxa de mortalidade se manteve elevada e, em algumas regiões, cresceu. O envelhecimento da população explica parte do aumento no número absoluto de casos, mas não justifica sozinho por que a proporção de mulheres que morrem pela doença não caiu no mesmo ritmo observado em outros países.
O peso do estágio ao diagnóstico
O fator mais determinante é o estadiamento, classificação que indica o tamanho do tumor e se ele já se espalhou para linfonodos ou outros órgãos. Estudos baseados em registros hospitalares brasileiros mostram que uma parcela expressiva dos casos, próxima de 40% em diferentes levantamentos, chega aos serviços nos estágios III ou IV, considerados avançados.
A diferença de prognóstico entre os extremos é grande. Tumores pequenos e restritos à mama têm taxas de sobrevida em cinco anos superiores a 90%. Quando há metástase à distância, a doença passa a ser tratada como crônica, com objetivo de controle, e a sobrevida cai de forma acentuada. De acordo com Vinicius Rodrigues, cada etapa ganhada no diagnóstico muda não apenas a chance de cura, mas também a intensidade do tratamento necessário.
Cobertura do rastreamento ainda é baixa
O diagnóstico tardio está ligado à cobertura insuficiente da mamografia. A literatura indica que o rastreamento contribui de forma relevante para a queda da mortalidade quando alcança cerca de 70% a 80% da população-alvo. No Brasil, a proporção de mulheres na faixa indicada que fazem o exame no intervalo recomendado fica bem abaixo dessa meta.
A desigualdade agrava o quadro. Mulheres com menor renda e escolaridade, e as que vivem longe dos centros urbanos, têm maior probabilidade de receber o diagnóstico em fase avançada. Na leitura de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o dado mostra que a mortalidade nacional esconde realidades muito diferentes entre regiões e grupos sociais.
Tempo entre suspeita e tratamento
Mesmo quando a mamografia identifica uma alteração, o caminho até o tratamento pode ser longo. Consulta com especialista, biópsia, resultado anatomopatológico e estadiamento envolvem filas sucessivas. Um tumor descoberto em fase inicial pode avançar enquanto a paciente aguarda a etapa seguinte.
A legislação prevê prazos de até 30 dias para exames de confirmação diagnóstica e de até 60 dias para o início do tratamento no SUS. O cumprimento desses limites, porém, varia bastante entre serviços e estados.
Caminhos para reduzir as mortes
Os fatores apontam para soluções complementares: ampliar a cobertura do rastreamento organizado, encurtar o intervalo entre exame alterado e biópsia e garantir acesso ao tratamento adequado para cada tipo de tumor. A ampliação da faixa etária no SUS para 50 a 74 anos, com acesso ao exame a partir dos 40, cria condições para alcançar mais mulheres.
O efeito sobre a mortalidade dependerá da execução. Conforme analisa Vinicius Rodrigues, a redução das mortes por câncer de mama no país passa menos por novas tecnologias e mais por fazer funcionar, de forma contínua e equitativa, o percurso que já é conhecido.
